
Divulgação: Frame do filme Takiwasi
Selecionado no 3º Período de Serviços CTAv de 2015, na categoria Mixagem, o documentário Takiwasi, de Ricardo D’Aguiar e Christopher Zahlten, retrata a experiência de pacientes, equipe médica e egressos de um centro de pesquisa de medicinas tradicionais da alta amazônia peruana dedicado à reabilitação de viciados em drogas.
O Centro de Rehabilitación de Adicciones y de Investigación de Medicinas Tradicionales TAKIWASI é uma associação civil sem fins lucrativos coordenada por uma equipe multidisciplinar internacional, incluindo médicos, curandeiros, biólogos moleculares e psicólogos, que investiga tratamentos capazes de revalorizar os recursos humanos e naturais como uma alternativa terapêutica de cura em contraponto a medicina ocidental contemporânea, comumente empregada nestes casos.
O diretor entrevistado, Ricardo D’Aguiar, é formado em Jornalismo pela PUC-Rio e tem mestrado em Mídia e Desenvolvimento Internacional na Universidade de East Anglia, Inglaterra. Ricardo já participou de vários projetos e trabalhos no campo audiovisual, ocupando funções de direção, edição, fotografia e câmera. Em seu currículo constam, a título exemplificativo, os documentários “Feminism: Speak Up!” e “A Vision in Education” e a série “Volunteers’ Odyssey”, produzida pela Prospective International e exibida em diversas redes de TV da Europa, África e Ásia.
Em Takiwai, além da direção, Ricardo D’Aguiar assina o roteiro, a fotografia e a edição do filme. Confira a entrevista que ele deu ao site do CTAv:
CTAv>> Conte como começou sua relação com o filme documentário.
Ricardo D’Aguiar>> Meu interesse por documentários vem da adolescência, com os programas da National Geographic (anos 1990). Desde criança adorava enciclopédias e acho que o cinema documentário na sua forma mais simples funciona similarmente. No colégio, fascinado por história, assisti a todos os episódios do clássico da BBC sobre a 2ª Guerra Mundial “The World at War”. Só na faculdade me dei conta de como o cinema documentário era muito mais diverso e sofisticado, repleto de possibilidades criativas. Tive aulas com Silvio Tendler que nos apresentou os clássicos Nanook (1922), Um Homem com Uma Câmera (1929), Koyaanisqaatsi (1982), Sans Soleil (1983) entre muitos outros. Foi aí que realmente me apaixonei pelo gênero.
CTAv>> O seu último filme, Takiwasi, conta com um co-diretor alemão, Christopher Zahlten. Este foi o primeiro trabalho conjunto de vocês?
Ricardo D’Aguiar>> Chris e eu trabalhamos juntos desde 2001 numa variedade de projetos. Nos conhecemos em Bruxelas para participar de uma série de vídeos sobre serviço voluntário internacional chamado Volunteers’ Odyssey. Foi uma experiência formadora intensa, gravamos em 8 países durante 4 meses, Rússia, Egito, Burkina Faso… Desde então seguimos fazendo parcerias.
CTAv>> E como se deu a escolha do tema deste documentário?
Ricardo D’Aguiar>> Tanto eu quanto meu companheiro de produção e grande amigo Chris há muito nos interessamos por temas nos limites da ciência convencional (Ocidental). Chris iniciou uma pesquisa sobre o tema da medicina tradicional amazônica e logo encontrou o centro Takiwasi. Descobriu que o presidente do centro estaria em Estrasburgo e combinou um encontro. Foi aí que tudo começou.
CTAv>> Você contou com algum apoio ou recurso para realizar a filmagem na alta Amazônia Peruana?
Ricardo D’Aguiar>> Contamos com o apoio do CTAv! Posso afirmar com tranquilidade que isso foi fundamental para obter um resultado de qualidade profissional. Contamos com apoio de colegas do meio, mas realmente o grosso da produção foi realizado por nós mesmos.
CTAv>> Você relatou ter sido submetido a alguns procedimentos do Centro de Reabilitação antes de iniciar as filmagens. Qual foi a situação mais difícil que você enfrentou?
Ricardo D’Aguiar>> As purgas, sem dúvida. A medicina tradicional amazônica, seguida à risca como é feito no Takiwasi, exige esse procedimento. A purga é uma sessão de algumas horas onde os participantes tomam o suco de uma planta medicinal – há várias plantas que servem esse propósito. O procedimento se dá numa maloca, construção tradicional circular ampla e arejada com teto de sapê e deve ser realizado em jejum. Após tomar o suco da planta que lhe foi designada pela equipe de curandeiros e médicos, a pessoa se senta e começa a beber água. Em alguns minutos isso leva ao vômito. Bebe-se mais água, vomita-se mais, até o fim de alguns litros de água conforme as instruções. O processo é exaustivo e o dia fica por conta disso. O resultado é muito bom, sentido no dia seguinte: corpo limpo, funções digestivas e respiratórias perfeitas, olfato e paladar aguçados, até nosso cheiro corporal muda. Pensamentos também, tranquilos. O processo é difícil mesmo, mas vale a pena!

Divulgação: Frame do filme Takiwasi
CTAv>> Como foi o processo de encontrar pessoas que passaram pelo tratamento e aceitassem gravar entrevista?
Ricardo D’Aguiar>> Os pacientes do centro, de forma geral, sentem-se presenteados com uma nova oportunidade na vida – eles deixam isso muito claro. Por tanto, apesar do tema delicado e das implicações da memória digital de rede etc, poucos se recusaram a participar. Alguns fizeram questão de registrar em câmera que teriam morrido não fora pelo tratamento no Takiwasi. Para encontrar pacientes que já tinham passado por lá, pedimos ajuda a funcionários do centro. Takiwasi possui um banco de dados completo para acompanhamento dos pacientes após o tratamento.
CTAv>> As filmagens foram realizadas em 2013, desde então você teve contato ou notícias de algum entrevistado?
Ricardo D’Aguiar>> Sim, felizmente, a grande maioria está bem. Dois rapazes tiveram recaídas, mas estão bem. Um rapaz cuja entrevista acabou não sendo usada teve um episódio mais sério de abuso de substâncias, mas sobreviveu. Como um dos ex-pacientes deixa claro ao final do filme, Takiwasi não oferece uma cura mágica, uma solução milagrosa e infalível. Contudo, o tratamento abre possibilidades e caminhos que podem sim levar a uma vida saudável e plena.
CTAv>> Existiu algum momento que você gostaria de ter capturado, mas não estava com a câmera a postos e acabou perdendo?Qual?
Ricardo D’Aguiar>> Bom, o ideal seria poder gravar o que ocorre nas nossas mentes durante as sessões noturnas de Ayahuasca – infelizmente ainda não existe uma câmera que filme isso! Aqui na realidade consensual, até hoje me arrependo muito de não ter gravado ao menos as performances dos ícaros durante as sessões. Os cantos são belíssimos e ao vivo têm uma força e beleza ainda maiores. Os participantes se emocionam muito, é um momento muito especial. Uma séries de questões nos levou a não fazer esse registro.

Divulgação: Frame do filme Takiwasi
CTAv>> Como foi a experiência de realizar a mixagem no CTAv? E como considera que este serviço venha a afetar o filme?
Ricardo D’Aguiar>> A mixagem no CTAv foi fundamental. Para quem não é do ramo, pode parecer uma tecnicalidade,
mas na verdade, se essa pessoa assistisse à um grande block-buster sem mixagem, duvido que ficasse na sala até o fim da sessão. O filme depende muito do som para funcionar, para transmitir sua mensagem, mesmo quando esse som precisa ser discreto. Tive a felicidade de trabalhar com um grande profissional, o Alexandre Jardim, que faz isso a quase 30 anos. Além de mixar, ele contribuiu muito com a edição do som e o tom do filme, foi uma aula. Ainda por cima o CTAv dispõe de um estúdio de mixagem profissional da mais alta qualidade, com equipamentos de primeira, uma tela de cinema enorme, padrão internacional. Foi muito bom contar com isso – nosso filme é quase todo gravado no meio da floresta, repleta de todo tipo de ruídos de animais, insetos, folhagem etc. Algumas entrevistas estavam muito comprometidas, agora já se pode ouvir bem – um resgate mesmo.
CTAv>> Para finalizar, onde os interessados em conhecer o documentário “Takiwasi”poderão assisti-lo?
Ricardo D’Aguiar>> Por ora o filme está disponível no Vimeo, logo mais num site dedicado com mais detalhes sobre o assunto, o processo de produção para os mais interessados, fotos links e informações sobre o tema. Estamos trabalhando nas legendas em português, assim que estiverem prontas, colocaremos no ar.
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Os interessados podem conferir aqui o trailer oficial de Takiwasi.
